\n'; document.write(barra); } } changePage();
| A era Ademir da Guia |
Quando começou a despontar nas categorias de base do modesto Bangu um rapaz de futebol elegante e clássico, o colunista do Jornal do Brasil Armando Nogueira o definiu em poucas e precisas palavras: "nome, sobrenome e futebol de craque". Tratava-se de Ademir da Guia, filho de um dos maiores zagueiros da história do futebol brasileiro, Domingos da Guia.
À época, contava apenas dezoito anos, mas já figurava na seleção carioca juvenil. Também impressionado pelos comentários que ouviu sobre o jovem talento, o então diretor de futebol do Palmeiras, Pedro Fischetti, viajou até o Rio para tirá-lo de Moça Bonita.
O objetivo do Palmeiras era anunciá-lo como substituto do craque Chinesinho, que fora negociado com a Fiorentina. Tamanha responsabilidade atrapalhou o jovem e tímido Ademir, que acabou não correspondendo às expectativas dos torcedores nas primeiras partidas. Impacientes, apelidaram-no de "bonde". A alcunha era uma referência ao ultrapassado meio de transporte, que já não era utilizado. Ademir seria, como ele, inútil.Os dezesseis anos seguintes se encarregariam de provar como estavam enganados esses torcedores. Ademir estreou em 14 de julho de 1962, o jogo foi contra o Taubaté. O Palmeiras venceu por 5 a 1.
No ano seguinte foi eleito o melhor jogador do campeonato paulista e se tornou titular absoluto e incontestável. Aquele era apenas o início da carreira do jogador que mudou a história do clube alviverde.
Começava a ser formada a maior equipe da história do Palmeiras. Treinada por Oswaldo Brandão, a "Academia", como ficou conhecida, chegou a desbancar o poderoso Santos de Pelé, conseguindo importantes títulos nacionais e regionais. Como maestro, Ademir regia o meio campo ao lado de seu grande amigo Dudu. Costumava-se dizer que Ademir da Guia não corria em campo, mas desfilava, tal era a elegância de suas passadas.
Impressionava pela precisão do passe e facilidade que tinha no domínio da bola. Sobre isto, seu companheiro Leivinha conta uma história interessante: "A gente brincava de 'bobinho' nos treinos e tentava fazer o Ademir ir para o meio. Todo mundo tocava para ele com efeito, mas não tinha jeito. Do jeito que a bola viesse ele dominava. Eu não me lembro de uma única vez em que o Ademir tenha ido para o meio da roda".
Ganhou da torcida e da imprensa o apelido de "Divino", a exemplo do seu pai, que já era "El Divino Mestre" para os uruguaios que o viram jogar no Peñarol. Alguns diziam que ele era lento, mas era, na verdade, ele quem ditava o ritmo palmeirense, cadenciando o jogo.
Seu ápice ocorreu em 1972. Foi campeão brasileiro, paulista e dos Torneios Mar del Plata, Laudo Natel e Cidade de Zaragoza. Quando o Palmeiras conquistou seu primeiro título brasileiro, Ademir da Guia acabou como o melhor jogador da competição, além de receber a "Bola de Prata" da revista Placar.
Na campanha do bicampeonato brasileiro em 1973, o Palmeiras disputou 40 partidas, levando apenas 13 gols (média de 0,32 por jogo), um recorde até hoje.
Seu último jogo foi uma derrota por 2 a 1 contra o Corinthians em novembro de 1977. Ademir só jogou meio tempo, pois já se encontrava com problemas respiratórios. Saiu no intervalo e nunca mais voltou. A despedida oficial, no entanto, ocorreu sete anos depois, em 23 de janeiro de 1984, em um jogo com amigos.
Em 1986, recebeu justa homenagem do Palmeiras: ganhou um busto na sede do clube, em São Paulo, honraria que só divide com mais dois nomes da história alviverde: Junqueira e Waldemar Fiúme.
Tantas glórias no Palmeiras não foram suficientes para sensibilizar os treinadores da seleção brasileira, que acabou mal-aproveitando um dos mais belos talentos já vistos no país. Defendeu o escrete nacional em apenas 12 oportunidades, não marcando gols. Sua estréia ocorreu em 1965, quando participou de quatro amistosos da seleção de Vicente Feola (contra Bélgica, Alemanha, Argentina e Argélia, este por apenas 20 minutos).
Ficou de fora da bagunça da Copa de 1966, na Inglaterra, embora fosse incontestável que dela merecesse participar. Para a Copa de 1970, não esteve nos planos de João Saldanha, que treinou a seleção nas eliminatórias, e nem nos de Zagallo, seu sucessor, que acabou treinando a seleção na conquista do mundial. Saldanha justificava dizendo já "estar fechado" com Rivellino e Gérson.
Quatro anos depois, Zagallo o levou para a Alemanha, mas o deixou no banco de reservas. Conta-se que recebeu a notícia da convocação para a Copa de 1974, na Alemanha, de sua mulher, que irrompeu a sala de sua casa contente de informar-lhe a novidade. Ademir, que almoçava calmamente, limitou-se a sorrir e voltou sua atenção ao prato de comida.
Só foi titular em uma partida, justamente na que não valia nada: na disputa pelo terceiro lugar, com a Polônia. Mesmo assim, permaneceu em campo por apenas um tempo, até ser substituído por Mirandinha.
Criticado pela substituição, Zagallo afirmou que fora o próprio jogador que pediu para sair. Elegante, Ademir da Guia preferiu confirmar a versão do treinador a contar a verdade e desmenti-lo.
Depois de deixar a carreira, passou a ensinar a sua arte para crianças, em escolinhas de futebol. Valia-se do slogan "Bom de Bola, Bom de Escola", recomendando aos garotos que não deixassem os estudos. Preocupava-se, assim, também com a educação de seus alunos.
Em 2001, recebeu justa homenagem do jornalista Kleber Mazziero de Souza, que escreveu sua biografia.Veja abaixo:
|
Autor : Kleber Mazziero de Souza Título : Divino - A vida e a Arte de Ademir da Guia Editora : Gryphus Número de Páginas 217 |
Clique na bola para voltar